A modelo, a atriz e a madame.

Não percamos de vista que o ano é 2012.
Que o século XXI já é uma realidade, as mulheres trabalham, os homossexuais se casam, falamos palavrão na TV, o sexo se tornou banal, a telefonia móvel veio pra ficar e você – bem, você é uma ilha cercada de gente e precariedade por todos os lados.

É a era do eu me basto, na qual a independência financeira torna soberano qualquer ser dotado de uma remuneração favorável que lhe permita ser mais alguém que o resto do mundo. Mas ora, se é um fato que isso pode ser um perigo, também não podemos perder de vista que um indivíduo independente não deve satisfações a ninguém. Ninguém.

Até que a modelo, riquíssima, lindíssima, cheia de superlativos, engravida. E, em seu direito de preservação individual, não conta quem é o pai. Não compartilha com 190 milhões de brasileiros essa informação tão relevante para o desenvolvimeto do país. Um absurdo. Revistas de fofoca, num apetite insano, especulam, afirmam, e o tema se torna ponto de partida para a crítica ao comportamento feminino em geral.

Até que a atriz, ex-casada com o jogador de vôlei, vai pras mesmas revistas dizer que o companheiro de 15 anos não foi um bom marido. Que quer retomar a carreira, que se arrepende de ter se anulado para se dedicar à família. Que ele é um ótimo pai, mas que deixou a desejar como homem. Fere a masculinidade em sua essência.

Até que a madame, desconhecida de nome, mas um estereótipo comum em salões de beleza, encontra uma semelhante e decreta: ser mãe é não ter vida própria, é nunca mais dormir uma noite inteira, é abdicar de tudo em função dos filhos. É super proteger e garantir que eles terão de tudo – mais até do que realmente precisam. E voltamos ao feminino, agora ungido de maternidade.

Século XXI, lembra?
Um tempo em que não respeitamos o direito individual à privacidade; não somos gratos a relacionamentos profundos, ainda que finitos; e perpetuamos, no fundo do nosso íntimo, que criar outro ser humano é abrir mão de si mesmo, como se isso tivesse um quê de altruísmo e benevolência, tornando-nos pessoas melhores em algum sentido.

Você é uma ilha, lembra?
Mas a precariedade não está apenas lhe cercando; não está apenas ao lado.
Ela não está no alheio. Ou está.

Lembre-se que você, em algum momento, é o alheio do outro.
É o precário que cerca por todos os lados.

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Sobre Ana Gomes

Profissionalmente, mais aqui >> https://br.linkedin.com/in/anacgomes
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