É tudo tāo simples mesmo, Danuza

No último ano-novo, no qual comemoramos o óbito de um 2011 maldito (sim, isso mesmo), eu e minha comadre-irmã trocamos presentes representativos para os nossos momentos de vida, e, considerando o fato de que somos loucas por livros, lá estávamos nós a rabiscar dedicatórias que deveriam ser enquadradas para pendurar nas paredes de nossas casas (todas, a física e a de dentro também).

Na dedicatória que recebi, entre tanta coisa linda e particular que me dou o direito de manter atrás da porta da intimidade (onde nāo há vassouras), ela diz que, ao olhar pra nossa amizade, depois de tantos anos e mudanças (geográficas no mundo e em nós), ela tem a certeza de que sāo as coisas simples que importam. Termina dizendo que me ama, assim, só isso, um pronome e um verbo flexionado. E precisa mais?

E essa mensagem abre o livro da Danuza Leāo, É Tudo Tão Simples. Se você não sabe a história da Danuza, dá uma corridinha no Google, mas basicamente é a história de uma mulher chiquérrima, envolvida nas mais altas rodas que, a certa altura da vida, enxergou que todo esse glamour pode ser proporcionalizado pra o que realmente importa. Quase uma releitura de Epicuro, que me perdoem os puristas.

Eu não concordo com vàrias coisas que ela cita, comenta e aconselha, tipo jamais deixar os seus netos te chamarem de vó ou de sempre usar rímel, até pra ir ao banheiro. Talvez eu seja até mais simples e/ou menos fresca pra isso, mas não é esse o ponto. É que por trás de qualquer opinião, mesmo que você até não concorde, todo o livro, toda ela, tudo está impregnado de auto-conhecimento e honestidade – consigo e com o mundo. Sou fã de quem não se agride em nome de um pseudo-ajudar /agradar o próximo e, ao mesmo tempo, de quem se doa e aceita certas coisas pra fazer o outro feliz. Amo. Amo quem se entrega, sem usar isso como desculpa pra deixar de ser si mesmo. Amo quem tem a coragem de assumir manias, compulsividades, loucuras e a vontade de ter um sofá aos pés da cama, além de um box que tenha espaço o suficiente pra caminhar (deixemos apenas nessa ilustração). Amo quem simplesmente assume.

Fora que a fluidez do texto é uma delícia, ela é engraçada e, no fim das contas (e do livro), é possível ter a certeza de que ela é aberta ao novo, ainda que tenha uma história de vida que pudesse acomodar um certo saudosismo (e com toda razão de ser, totalmente perdoável).

Tudo isso pra dizer que hoje acabei de ler, é Dia das Mães – tem um capítulo, aliás, só sobre o tema, que versa sobre um pessismisto generalizado, mas é genial e real na maioria das vezes – e as coisas já mudaram muito desde o último Reveillón. Tudo isso pra dizer que a minha comadre-irmã-amiga, que também está nessa caminhada evolutiva, acertou em cheio no meu presente mesmo. Convenhamos, a caminhada rumo a um eu-melhor é feita de salto, na chuva, em calçada de pedrinha portuguesa e sola lisa, usando camiseta branca. Porque a gente escorrega, se esborracha, se envergonnha com a quase-nudez social, fica presa entre os vãozinhos e às vezes não sabe o que é chuva e o que é lágrima. Porque às vezes a gente senta na guia e só quer desistir.

Mas é tudo tão simples. Você pode desistir ou, simplesmente, tirar o sapato, amarrar o cabelo e, quem sabe, procurar um toldo até o sol chegar de mansinho. Você não pode mandar na chuva, mas pode decidir se quer se molhar por prazer ou se prefere ficar quietinha, dentro de si, até que as pedrinhas portuguesas sequem – e, pelo menos por um tempo, você não escorregue mais.

Obrigada, Paula. Ser sua amiga significa muito pra mim. Te amo.
Assinado: Nacràudia.

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Sobre Ana Gomes

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