De rainha absoluta à igualdade (será?) em 40 anos

Publicado no Culflow em 02/02/2012

Há um tema que me chama a atenção, especificamente na música. Essencialmente eu gosto de MPB e samba, daqueles de raiz (pista sobre minha origem), mas ouço de tudo. E quando eu falo de tudo, é tudo mesmo. Qualquer ritmo, em qualquer idioma, mas a minha curiosidade é voltada à produção nacional, aos meandros da língua, à história intrínseca.

Hoje eu queria destacar a condição da mulher no contexto musical. E se vc está pensando que vou discorrer a respeito da presença feminina no mercado de trabalho, no segmento, engana-se. Quero falar da mulher, com todo o respeito, mas como objeto de composição. Ela, a musa inspiradora.

Ou quase isso.

Podemos conectar vários aspectos históricos, e o farei superficialmente: a pílula, a revolução sexual, a independência e a transformação de dona-de-casa em arrimo de família. Pronto. É suficiente pra entendermos o contexto. Por necessidade, gritávamos por igualdade. O que não sabíamos, lá atrás, é que isso teria um impacto no romantismo masculino. Veja, não defendo um ou outro. Estou aqui pensando alto, construindo.

Pois se Roberto Carlos dizia que não havia palavras pra dizer o quão grande era seu amor; se Tom Jobim afirmava que iria amar por toda a vida e Chico ousava, vestido em metáforas de salto alto, afrontar o homem indagando como este suportaria vê-la tão feliz depois de um rompimento… É de imaginarmos que a mulher ocupasse tal posição de importância que fazia com que os românticos incorrigíveis fizessem girar, ao seu redor, seus sofrimentos, angústias, partituras e arte. Seu mundo.

Até que ela, a amada amante, adorada, o tudo, de repente se rebelou e quis dividir a conta do restaurante. E o que conseguiu?

O Exaltasamba aconselhando que ela aproveite, porque ele só será dela por uma noite; João Bosco e Vinícius caçoando com ‘chora, me liga’ e o mundialmente conhecido Michel Teló (não dava pra ficar sem falar nele), pra quem a mulher é a menina mais linda da balada de sábado à noite. E só.

(pausa pra reler e ver se faz sentido)

Vc pode argumentar que estou comparando laranjas com maçãs. Mas não estou olhando os artistas em si. Estou olhando o contexto. Até porque, um Chico Buarque, hoje, não tem omesmo nível de construção lingüística – mesmo quando tenta falar de uma mulher especial (vide Renata Maria e fim).

Atentemo-nos à intenção das letras. E a como nos comportamos e reproduzimos. No caso da música do Teló, tem uma reposta: algumas mulheres fizeram uma versão menosprezando o moço e debochando da cantada, creio que na intenção de resgatar um pouco do amor-próprio (além, claro, de pegar carona no sucesso). Seria ótimo, não fosse por um motivo – responder à altura, nesse caso, é igualar-se a algo de qualidade duvidosa e não traz de volta a aura de musa. Mas talvez isso dê margem aoutra discussão.

Ao longo de 40 anos a tão reivindicada igualdade entre sexos pode até ter chegado em alguns aspectos. Na música parece que o reflexo foi contrário – passamos de inspiração a mocinhas em liquidação. Aos montes, às vezes amontoadas em ponta de estoque, mas tbm porque assim o quisemos e deixamos.

(pausa para a fúria potencial)

Mas calma, nem tudo está perdido. Lenine junta todas elas num só ser, pra homenagear apenas uma. Duvida?

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Sobre Ana Gomes

Profissionalmente, mais aqui >> https://br.linkedin.com/in/anacgomes
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