A estupidez sobre rodas

Há poucos dias uma ciclista foi atropelada e morta na Avenida Paulista. Mas, pra mim, o absurdo não foi esse. O que me chamou a atenção, pela naturalidade com quem foi publicada, foi a informação de que ela GRITOU para o motorista de ônibus, tentando avisar que, sim, ela existia. Sobre uma armação frágil de alumínio, mas ela existia. Contra um veículo de mais de uma tonelada, mas ela existia. Existia.

Se vc está achando que esse texto é ativista pró-bicicleta, engana-se. Eu só quero tentar organizar os meus próprios pensamentos e faço isso melhor quando escrevo. Pois bem.

A coisa toda começa a me irritar quando o discurso sustentável deixa de lado questões práticas e desconsideram pontos geográficos. Assim: ah, muito legal mesmo ir trabalhar de bicicleta. Aí eu olho pra mim: trabalho de terno/saia + salto, tenho que levar dois filhos ao colégio + mochilas, carrego bolsa + mala do micro; ora estou na Paulista, na Vila Mariana ou no Itaim, o que, em média, dá uns 12 km de distância da minha casa. O terreno de São Paulo não é plano como o de Amsterdam, longe disso. E O TRÂNSITO NÃO É PREPARADO PARA RECEBER BICICLETAS DURANTE A SEMANA. Mas enfim, eu é que devo ser uma malvada contra o engajamento das bikes. Já me conformei.

Por essas e outras razões, sou partidária do meu carro, minha vida. O governo tbm deve ser, porque facilita pras montadoras, incentiva o crédito e, cada vez mais, temos carros zero quilômetro nas ruas da cidade. E isso porque nem vou entrar no mérito das motos – isso daria um outro post tão grande quanto esse.

Entenda, eu não sou contra as bicicletas. Só não sou a favor da FORMA como tudo está sendo feito. Os ciclistas simplesmente brotam no meio da rua, muitas vezes sem equipamento de proteção; sem decidir em que faixa vão andar, sem respeitar os sinais. Eles são frágeis se comparados aos demais veículos. E então, quando acidentes acontecem, é claro que sempre serão as vítimas. Porque a gente tem a tendência de sentir pena do mais fraco. É humano.

O carro, nessa história toda, ficou espremido no que sobra. Temos faixas de ônibus, moto, obrigatoriedade de distância de 1.30m em relação às bicicletas. Os carroceiros, as ambulâncias, as viaturas. E o motorista de carro ali, sendo julgado porque está sozinho num veículo em que cabem mais QUATRO pessoas. Ele, um culpado sem ter cometido nenhum crime. Não é exagero. O que tbm não faz dele um santo.

Pra mim, de verdade, a questão é a organização e a infraestrutura pra receber as bicicletas – o que, convenhamos, vai levar por baixo uns 10 anos. Numa sociedade como a nossa, em que as pessoas só começam a respeitar quando são OBRIGADAS a isso, até consigo entender esse movimento semi-revoltado daqueles que, por condições favoráveis de vida, adotaram a bicicleta como meio de transporte.

Mas não é só isso. O que, no fundo, poderia facilitar as coisas, é algo que por vezes eu comento aqui e ali, mas que parece um discurso utópico: gentileza. Talvez se parássemos de olhar para o nosso umbigo, com as nossas urgências e as nossas pressas; se conseguíssemos olhar em volta e, simplesmente, reduzir a velocidade para dar passagem a um pedestre, ciclista, motociclista ou outro carro; se finalmente entendêssemos que isso não nos torna menor… Talvez (TALVEZ) a coisa toda fosse direcionada com mais tranquilidade e menos mortes.

Nem os ciclistas querendo se impor, nem os grandes veículos os repelindo. É meio Davi contra Golias, sem o final inusitado. Bato na mesma tecla de que a solução não passa pela educação das pessoas no trânsito; passa pela EDUCAÇÃO DAS PESSOAS e fim. A estupidez anda a pé, porque, ao fim e ao cabo, somos todos pedestres. Mas, quando está sobre rodas, pode ser mortal. Duas ou quatro, de liga leve ou fibra de carbono. Dá no mesmo. Todo mundo perde.

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Sobre Ana Gomes

Profissionalmente, mais aqui >> https://br.linkedin.com/in/anacgomes
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2 respostas a A estupidez sobre rodas

  1. daniela diz:

    Como sempre, adoro seus textos Ana. Adoro suas criticas e o seu modo de pensar sobre os fatos.

    Beijo.
    Dani.

  2. Ana diz:

    \o/ beijo, querida.

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