Não dá pra não comparar, uma visão pessimista do mundo (parte I sobre liberdade)

Acumular jornais para ler no fim de semana era algo que eu fazia por impossibilidade de saboreá-los quentes, pela manhã, mas que, ao longo do tempo, passei a adotar como um hábito. Assim como a vingança, acabo por degustá-los frios, o que se mostra, de certa forma, frutífero.

Credo, quanta vírgula.

O bom de juntar todos eles é que, em ordem, consigo ver a evolução de um assunto, comparar as capas, mas, acima de tudo, consigo correlacionar assuntos que às vezes ficam vagando aqui dentro da minha cabeça, meio sem ter pra onde ir.

Hj acabei lendo dois artigos, um do Carlos Heitor Cony (10/02) e outro do Ferreira Gullar (12/02) e a essa altura vc ja deve saber que eu assino a Folha. Tá, eu espero vc pegar o telefone pra me ligar querendo tirar satisfação, mas vamos lá: quais as opções? Pois é. Então se aquieta e vem comigo.

O Cony fala sobre dois regimes opostos, democracia e ditadura, refletindo que as mazelas de cada uma não levam, contudo, a uma terceira opção que seja razoável, organizada e mantenha um mínimo de controle. Gosto, particularmente, do trecho —

“Agora a pergunta: depois de viver séculos e séculos cultuando a democracia como a solução ideal para a vida das nações e dos indivíduos, é natural que algum espírito de porco questione o problema.”

Negrito, ops, afro-descendentito por minha conta, porque simplesmente amo quem não é politicamente correto pra escrever. Aliás, amo quem não é politicamente correto. Ponto. Direto.

O Gullar traz dois sistemas opostos, capitalismo e socialismo/comunismo (eu sei que são coisas diferentes, antes que alguém se revolte) e não quero aqui fazer uma regra de três, embora isso seja quase inevitável. É claro que estou simplificando as coisas, porque entre o preto e o branco tem um monte de cinza meio sujo que não cabe num post de blog, né. Vamos nos recolher à nossa insignificância. O ponto principal é que, de forma muito competente e também sem floreio, ele fala que ninguém, no fundo, por mais idealista que seja, quer morar num país em que é preciso ter AUTORIZAÇÃO do governo pra ir e vir.

Oi, 2012?

Então eu quero chegar aqui: junte esses dois assuntos ao aniversário da revolta no Egito, que acabou com a saída do ditador Mubarak. Insatisfeitos com um regime opressor, os egípcios foram às ruas achando que adentrar o maravilhoso mundo da democracia (e, por conseguinte, ter acesso ao capitalismo em sua formamais atual) seria a solução de todos os problemas e que, pra isso, bastava tirar o lobo-mau de lá do trono.

Eles conseguiram dar o primeiro passo. Mas, agora, não sabem o que fazer e estão frustrados.É que esqueceram de avisar a eles que aqui desse lado também se vive oprimido, acorrentado, escravo de algo invisível, velado e, talvez, pior: disfarçado de felicidade que veste Calvin Klein, calça Jimi Choo, com suas mulheres independentes e homens lindos-capas-da-Men’s Health.

Esqueceram de dizer pra eles que a terceira via não existe. E que talvez eles não precisem de autorização pra se locomover, o que não vai fazer diferença nenhuma, porque é bem provável que eles não tenham pra onde ir. E, se tiverem, é possível que não consigam. E, se conseguirem, certamente  serão estranhos, por gerações, num ninho que deveria acolher, mas que faz a gente se matar, tamanha a liberdade que se (acha que se) tem.

O admirável mundo novo dá as boas-vindas sorrindo com dentes podres que parecem de ouro.

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Sobre Ana Gomes

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