Defeitos em sacolas, um especial

Começo pela confissão de que tenho um milhão de defeitos. E luto contra eles (os mais graves) todos os dias. Acho que estou a salvo dos desvios mais graves da maldade e do caráter, a execução em si, mas não o sentimento.

Crucial. Importante dizer como as coisas acontecem dentro de mim nesse sentido. Sentir a perversão e o condenável é absoluta e inevitavelmente normal. A grande diferença, na minha humilde opinião, é transformar esse sentimento em ação direcionada, inconsciente ou não, em direção ao outro. Reta ou curva, essa trajetória é feia. Feia, que no meu vocabulário de cinco anos de idade é um dos piores xingamentos que há, junto com desleal.

Volto pro meu quinhão de defeitos. Uma cesta cheia deles, três sacolas daquelas gigantescas da Lojas Americanas ou da PBKids, mais alguns punhados aqui e ali. Muitos. Mas, até hoje, um deles eu acreditava não ter, não mesmo, não não e não batendo pé e fazendo bico (ah, a teimosia a domar). E eis que o reconheci.

A meu favor tenho a argumentar que não apresento tal deficiência em sua forma-estereótipo, ao contrário. Justamente por comportar-me como oposto, julguei-a inexistente, até que enxerguei-a disfarçada, quase imperceptível, e quando puxei o véu, escondeu-se envergonhada e saiu à francesa. Não sei se volta.

Quando ficamos tristes porque alguém que amamos vai embora, é ele. Quando tomamos decisões colocando alguma questão pessoal acima das outras, é ele. Quando, por um segundo, nos sentimos injustiçados, é ele. Estreitando, permeando, esperando ali um pequeno espaço pra tornar o seu umbigo, claro, o retorno do universo (já não era?).

Esqueça o comportamento padrão de não dividir o hidrocor na escola. Deixe de lado a identificação de aspectos do não-compartilhamento. A manifestação no material é explícita, mas ele é mais grave por dentro, como um câncer.

O egoísmo transmuta-se em benevolência e auto-confiança, mas é preciso estar à espreita. Uma vez reconhecido, deve ser educado com rigor, disciplina militar, para que não transborde. Mas não se engane. Não é a solução definitiva. Nas minhas cestas e sacolas de defeitos, preciso cuidar pra que ele não se perca e eu fique cega. Assumir que não o tenho é a manifestação mais cruel dele mesmo.

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Sobre Ana Gomes

Profissionalmente, mais aqui >> https://br.linkedin.com/in/anacgomes
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