Sobre deus e a minha crença

É engraçado como a mentalidade judaico-cristã está impregnada em nós, ainda que não sejamos, por opção adulta, católicos. Ora, se desde muito cedo procuramos o menino Jesus para colocar na manjedoura e ganhar presentes; se comemoramos o coelhinho da Páscoa e a imagem do casamento é uma noiva de branco, é fato que algo temos de arraigado dentro da mente (e do peito).

Toda essa coisa de existir um deus, portanto, é algo que existe desde que o mundo é mundo e desde que a gente é gente – ou se entende por. Pelo caminho questionamos, negamos ou simplesmente ignoramos. Os três principais pilares – crente, ateu ou agnóstico – se desdobram em milhares, mas não vamos complicar o que já é difícil de descrever.

Na verdade, eu só queria dizer que fui batizada, fiz catecismo, primeira comunhão, crisma, renovei os votos, estudei em colégio de freiras por um tempo (imagina, imagina) e, sim, me casei na igreja. O último item não por obrigação, mas tbm é outra história.

Mas deus sempre foi presente na minha vida, não um deus, assim, fofinho de barba e vovozinho de sentar no colo. Não vou saber dizer muito bem, mas sempre foi muito mais uma força, uma energia, esses papos meio hippies que o meu ascendente em Peixes denuncia. Nunca fui beata, conheci algumas religiões diferentes e, por fim, me decidi pela doutrina espírita, com técnicas de meditação do budismo e práticas específicas da umbanda. Mas calma, não amarro o nome de ninguém na boca do sapo, olha o preconceito.

O que me chama a atenção é como as pessoas vêem e manifestam deus. Não tenho paciência com aqueles que acham que têm que estar num templo, numa igreja, no tapetinho virado pra meca, com dúzias de guias no pescoço ou desencapetando em algum canto. Os estereótipos me incomodam sobremaneira e falar de deus virou algo brega que, se muito, tem valor em canções do Rei. Roberto Carlos, não deus, vc me entende.

Desse jeito, a gente meio que se acostuma a não falar dele, porque corre o risco de virar *o* catequizador-que-passou-por-lavagem-cerebral ou porque tem medo de ser carimbado de fanático e por aí vai. Equivalente ao eco-chato que abraça a árvore, tenho CERTEZA que vc me entende, porque já topou com alguns por aí.

E aí vem esse cara e faz isso: http://www.youtube.com/watch?v=hqArQMSH2XA
Um sambista que, além dessa, tem mais um monte de músicas que falam de deus, sem vergonha de parecer chavão, piegas ou o chato de plantão. Aí, sem querer, as pessoas cantam e nem prestam atenção – o que, convenhamos, tbm não adianta muito, mas é um começo.

A minha crença transita muito por manifestações que falam ao meu coração. O samba é uma delas. A mensagem, também. E eu tenho certeza que, se ele pudesse vir até aqui, o ‘cara lá de cima’, como a Xuxa falava todo dia, não pediria dízimo ou proibiria amar o mesmo sexo, pra ficar em exemplos básicos. Acho que ele pediria pra sermos felizes e fazermos o bem. Tão simples quanto.

Eu vou encontrando meus caminhos, num sincretismo ao pé da letra. E é por isso que, pros momentos de força & proteção, São Jorge. Pros de sabedoria & paciência, São Francisco. Pra segurança, Iemanjá. Acima de tudo, deus. Sem vergonha de assumir ser diferente, e assumindo ser igual se for verdadeiro, de coração.

Cada um na sua. Mas com alguma coisa em comum. E eu não estou falando de cigarros 😉

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Sobre Ana Gomes

Profissionalmente, mais aqui >> https://br.linkedin.com/in/anacgomes
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8 respostas a Sobre deus e a minha crença

  1. Dani diz:

    Um dos melhores textos que você ja escreveu aqui.
    É eu leio seu blog sempre que posso, como adoro ler muito, e principalmente ler sobre assuntos inteligentes e interessantes.
    Amei seu jeito de ver as religiões, e me faz pensar um pouco sobre esse assunto.
    Espero que todos estejam bem, beijos.

    PS: Não para de escrever mais não, rs.

  2. Ana diz:

    paro no 🙂

    Que bom que vc gostou. Por favor contribua mais vezes. beijo

  3. Giggio diz:

    O sincretismo. Pega o bom de todas as religiões e esquece o resto – o ônus – coisas que todas as religiões, judaica, muçulmana, católica, etc possuem. No sincretismo não, as pessoas focam no melhor de todos os mundos e tudo fica mais bonitinho e fácil.

  4. Ana diz:

    Oi Giggio. É uma forma de ver o sincretismo, sem dúvida. Se pra vc faz mais sentido assim, ok. No meu caso, não tem a menor lógica uma crença ter um ‘ônus’: então quer dizer que pra ser católica eu tenho que aceitar ir à igreja todo domingo se isso não me agradar de alguma forma?

    Acho que temo que tomar cuidado ao misturar o conceito com as invencionices humanas, afirmando que o pacote só pode ser aceito completo – extinguindo-se, portanto, as outras opções.

    Temos que lembrar que as religiões dogmáticas foram organizadas tbm para manipular e atender aos interesses individuais/políticos de alguns, em algum momento.

    Sob o meu ponto de vista, aceitar qualquer coisa sem criticar e abrir mão do resto ‘pq é assim’ não é de todo inteligente, principalmente num mundo como hj. Mas eu respeito.

    Obrigada por comentar 🙂

  5. Giggio diz:

    Ana, o ponto que coloquei é que, gostemos ou não, há o ônus. O católico tem que comungar, confessar-se, etc. O muçulmano pelo menos uma vez na vida precisa ir a Meca. O judeu precisa ser circuncisado, etc. O que eu vejo, quando as pessoas vão pelo lado do sincretismo, é que elas o usam de maneira a não precisar cumprir com essas “obrigações”. É muito muito difícil, por exemplo, ser católico e praticar. Pouquíssimos o fazem. Claro, mesmo fazendo, deve haver crítica. Mesmo que algumas coisas sejam simplesmente dogmas e em teoria, devem ser aceitas como são. Abraço.

  6. Ana diz:

    Giggio, Mas a pergunta é: POR QUE o católico tem que comungar? POR QUE o judeu precisa ser circuncisado? Quem disse que somos obrigados a essas coisas pra chegar a deus, entende?

    Meu ponto, além disso, é que as pessias acham que, seguindo essas ‘ordens’ já podem se auto-intitular religiosos e se esquecem, por exemplo, de ajudar o próximo. Ou fazem fofoca, mentem, prejudicam outras pessoas.

    Enfim. Pra mim, o que importa é ser feliz, sem desrespeitar o mundo à sua volta e, de preferência, praticando a caridade (mas esqueça a caridade-clichê, por favor rsrrs).

    No fundo, o que não gosto é de gente que se esconde atrás de algo (seja uma religião) ou que cumpre algo no automático, pra ‘dizer que é’. E essa coisa de que deve haver o sacrifício (obrigatoriamente) para ter algo bom…. Não curto e não vejo sentido.

    No fim, cada um deve assumir a responsabilidade sobre si e seus atos. Ih, acho que sou parte-ateu…. Rsrsrs

  7. Beto Borges Ferreira diz:

    alem de linda vc é super inteligente

  8. Ana diz:

    Ol, Beto. Agradeo 🙂

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