O retorno da princesa (eu, pra não ficar dúvida)

Hoje casam-se o Príncipe William e a plebéia Kate, em Londres. E se vc não sabe quem são, decerto não estava nesse planeta nos últimos 20 dias, ou ao menos já teria visto a fuça dos dois estampada em canecas de péssima qualidade por aí.

O que digo é que, ainda que vc seja como eu, uma pessoa meio avessa à TV por circunstâncias logísticas da vida (e de princípios), mas que tem um mínimo de contato com a vida real desse mundão de meu deus, bom, é impossível não saber que esse evento estava em vias de acontecer. Porque, afinal, a alta do combustível, o Delúbio quase voltando pro PT, o DEM e o PSDB na boca de se fundirem, o Alabama destruído por um tornado de 2km de diâmetro, nada, NADA tem mais importância do que o casamento da princesa.

Sim, da princesa. Não é o William, nem a rainha, nem o Príncipe Charles, ninguém: é o casamento de uma moça do povo, que convidou o açougueiro do bairro a estar presente no castelo e não irá jurar obediência ao marido em pleno 2011. Claro que a Lady Di não ficaria de fora, mas el;a está mais como uma entidade de comparação do que outra coisa.

Mas enfim, nem era sobre isso que eu queria falar. A imprensa em polvorosa, mulheres esperando pra ver o modelo do vestido (de uma estilista brasileira, aliás, Daniela Helayel, se não me engano) e copiar, o mundo, neste momento, acompanhando os movimentos na Abadia de Westminster.

E eu fiquei pensando o que me faz ser indiferente, do ponto de vista do encantamento, a esse fato. Claro, considerando que não sou mesmo uma mulher no amplo sentido das manifestações femininas, mas ainda assim.

Eu nunca gostei de contos de fadas. Não aqueles em que a princesa era uma songa monga que cantava com passarinhos à beira da lagoa cristalina. Minha infância foi povoada por Cinderelas e Brancas de Neve, mas eu gostava mesmo era da She-ra. Tá, se vc tem menos de 20 anos, eu adapto: hj sou fã da Fiona. Melhorou? Ótimo.

O que quero dizer é que eu nunca tive anseios de princesa. Jamais sonhei com um casamento de cinema, pompa e circunstância; não lembro de um dia desejar ter o castelo da Barbie e nem por um segundo me imaginei acima de toda uma nação.

Mas, de verdade, a diferença é que eu nunca esperei um príncipe.
Simplesmente porque eu achava os princípes chatos demais (menos o He-man e o Shrek, claro), a história toda perfeita demais, essa coisa de me dar um beijo pra acordar ou me procurar pelo tamanho do sapato não era muito atrativa. Porque eu gosto de gente de verdade, sem uma família pra decidir o futuro, sem protocolo, sem precisar pedir permissão pra tomar um porre num sábado à noite e dar vexame.

Porque eu sou do tipo que, às vezes, dá vexame. E nem me acho tão bonita, nem tão educada, passo longe de ser refinada e elegante. Acho um absurdo não poder cortar a salada (e corto), ter que comer com a mão esquerda (uso a direita), gosto de homens que usam cabelo moicano e não consigo nem me visualizar ocupando um aposento real.

Muito pelo fato de eu não possuir aspirações impossíveis ou irreais, o casamento da princesa, pra mim, é mais um evento social que deve ser observado criticamente, por conter elementos inimagináveis para o nosso século e a nossa realidade ocidental vigente. É incrível perceber que não importa o quanto as pessoas sejam inteligentes, ou o quanto esse momento devesse ser particular e especial para os noivos: temos o poder de transformar absolutamente tudo em algo comercial e midiático.

E como eu sei disso tudo? Tenha um twitter, assine um jornal, ouça rádio e observe pessoas na padaria. Basta. É o suficiente pra eu ter a certeza de que a Kate é a She-ra, só que disfarçada de Rapunzel. Escolhas, afinal.

* Esse texto é dedicado à Paula Bravo, que me lembrou da existência desse espaço e despertou a minha vontade de escrever sobre o tema. A ela, que para mim é uma princesa como a Arwen, guerreira e linda, meus sinceros agradecimentos. Escrever me renova e fortalece 🙂

Anúncios

Sobre Ana Gomes

Profissionalmente, mais aqui >> https://br.linkedin.com/in/anacgomes
Esta entrada foi publicada em quase papo furado. ligação permanente.

4 respostas a O retorno da princesa (eu, pra não ficar dúvida)

  1. Por isso novelas da Globo tem tanta audiência….
    Por isso as pessoas continuam preferindo Hollywood a Bollywood…
    Mas tudo isso foi facilmente resumido por Nietzsche:
    “Só os mitos são imortais”

  2. Ana diz:

    Novelas do séc XIX, baseadas em histórias que acontecem desde sempre. quem é vc?

    abs ana
    (hohoho)

  3. Paula Bravo - a "própia" diz:

    Está super dedicado a mim mesmo: “E se vc não sabe quem são, decerto não estava nesse planeta nos últimos 20 dias”. Típico da minha pessoa! Rs, mas dessa vez eu sabia desse acontecimento iminente! Só não me apeguei muito nele, assim como você. Você sabe como eu sou né… Kate, who? Whatever….

    Ai, princesa, príncipe, plebe, castelo….? Que coisa mais 1800… Posso estar sendo superficial, mas acho o Ó da falta de moderindade. Hello, England, já mudamos pro século XXI, se atualize!

    Sabe uma que meu amigo postou no Facebook que eu achei ótima?
    “‎2011: Monarquia e Marketing fazem sexo explícito”
    Hahahaha… Pra mim resume bem todo esse fuzuê, um tanto quanto esdruxulo, em relação ao Casamento da Princesa e do Príncipe ¬¬

    Beijo, me liga, Gomes! 🙂

  4. Ana diz:

    hahahha sim, Paulinha. Mas eu tinha CERTEZA de que vc saberia algo, pelo menos.
    Sabe quem é a Arwen?
    Te ligo semana que vem, deixa só eu dormir decentemente no fim de semana….rsrsrs

    beijo!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s