Eu, Michel Teló e Paulo Coelho

Uma ou duas coisas que penso sobre o Michel Teló. Talvez mais do que isso, talvez seja sobre todo esse rebuliço em torno dele. Não faz diferença, nesse caso. Porque, pra mim, Michel Teló é um gênio. Igualzinho ao Paulo Coelho.

– Pausa para os pensamentos agressivos, emanações de energia negativa em minha direção e suspiros de decepção que eu posso jamais conseguir desfazer.

Bom, é isso aí, em resumo. Mas me sinto na obrigação de explicar a contento.
Andei vendo capa de revista semanal, críticas inflamadas, opiniões ponderadas e, mesmo não buscando a música do moço, ela chegou até mim de várias maneiras – inclusive pelo meu filho de três anos. Eu já a dancei sozinha e acompanhada, já vi partes do DVD e conheci sua versão em inglês.

E é aqui, senhores, que está o pulo do gato.

A música que ganhou o mundo, embora não seja nada elaborada nem do ponto de vista musical e tampouco sob a ótica do idioma, justamente cruzou os mares pelo segundo motivo, na minha opinião. Acompanhem meu raciocínio: a língua portuguesa é, sem dúvida, uma das mais complexas em termos de estrutura e meandros. Vcs conseguem imaginar uma tradução de Construção? Nem eu.

E é aqui, senhores, que entra o Paulo Coelho.

Porque eu tbm não consigo imaginar uma tradução fiel de Machado de Assis, por exemplo. Nem de Jorge Amado e nem de um monte de gente que até é conhecida internacionalmente, mas que, por circunstâncias da época e por complexidade, não estourou dessa maneira. O Paulo Coelho, no entanto, não se compara em termos eruditos, mas é aquilo, né: sucesso mundial. Com uma literatura-clichê tão romantizada quanto um Sartre do século XIX, é nome de rua, tem prato em menu francês e é recebido por príncipes de reinos que parecem saídos de um de seus livros – livros esses, aliás, inclusive pirateados na África (sim, eu li a biografia d´O Mago).

E é aqui, senhores, que Michel Teló encontra Paulo Coelho. Ah, e tbm tem eu.

Não acho que eles representem toda a nossa cultura, até porque, chovendo no molhado, a cultura brasileira é que nem fundo do mar: quanto mais fundo vamos, mais descobrimos. Mas acho, sim, que eles expõem ao mundo um pouco do que nós somos. Esse povo de maioria medíocre no sentido literal da palavra; que consome literatura facilitada e superficial; que lota estádios para sorver músicas de quatro acordes e que nem por isso é inferior.

Assim como a Zibia Gasparetto serve como porta de entrada para os que se aprofundam em bom material espírita, o mérito de Paulo e Michel é, talvez, trazer curiosos para nossas raízes que, invariavelmente, hão de se apaixonar por nós. Ou, apenas, deixar uma sensação de alegria e leveza para uns gringos acostumados a peças profundas de jazz ou à rebeldia do rock.

Sao uns gênios porque, acima de tudo, fazem dinheiro – e para isso é preciso talento.

Não gosto de um e nem de outro. Mas os conheço, porque conhecer a cultura do próprio país não é possível sem antes passar por um ou dois apuros. Ninguém é obrigado a ser fã de carteirinha – mas tbm não é recomendável ignorar e, modestamente, acho condenável agredir.

 

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